YOGA E MEDITAÇÃO: UM CAMINHO PARA A INTEGRAÇÃO DO SER

 

 

 

 

 

Otilia Balbina do Rosario[1]

 

 

RESUMO

     O objetivo deste trabalho é ressaltar a importância do Yoga e da meditação como uma prática e um sistema filosófico que visam à harmonia e o equilíbrio em todos os campos da vida tornando-se por isso um caminho possível para atender à necessidade arquetípica do homem de buscar a sua totalidade através da integração das partes que o constituem (corpo – mente – espírito).

 

PALAVRAS CHAVES: Yoga, meditação, integração, corpo, mente e espírito.

 

ABSTRACT

The objective of this paper is to emphasize the importance of yoga and meditation as a practical and a philosophical system aimed at harmony and balance in all areas  of life becoming so one possible way to address the need of the archetypal man to seek fully through the integration of its constituent parties (mind - body - spirit).

 

KEYWORDS: Yoga, meditation, integrating, body, mind, spirit.

 

_________________________

 

[1]  Licenciatura em Letras Português e Inglês pela Fundação Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Guarapuava (1977), Graduação em Psicologia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras “Tuiuti” (1992) Pós-Graduação em Psicologia Analítica pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (1997).

 

otiliabalbina@yahoo.com.br

 

INTRODUÇÃO

 

     A escolha deste tema não obedeceu apenas aos aspectos racionais que devem sempre orientar as decisões conscientes, ao contrário, ela é fruto de uma necessidade premente, uma evocação irresistível da alma que busca como tantas outras que se encontra ao longo do tempo no fazer clínico, reunir as partes fragmentadas do seu ser.

     O surgimento da consciência necessário para a evolução humana num primeiro estágio teve como consequência a fragmentação do ser que assim se vê envolto na tarefa de buscar novamente a sua totalidade num nível de consciência mais amplo.

Esta busca contínua pela integração do ser é arquetípica, ela aparece em todas as culturas: nos mitos, nas especulações filosóficas e nos ensinamentos religiosos de todas as épocas.

     A capacidade discriminatória da consciência produziu a separação entre mente e corpo, espírito e matéria, masculino e feminino; bem e mal, vida e morte, em fim do ponto de vista da consciência humana tudo se decompõe em seus pares de opostos e assim conforme o meio em que se está inserido, as experiências vivenciadas, vai-se jogando luz ou privilegiando um ou outro aspecto da realidade, construindo-se desta forma um mapa através do qual se busca compreender o mundo.

     O conforto que advém do fato de se ter um instrumento que permite decodificar e lidar com a realidade com certa segurança, produz no indivíduo uma sensação de que a sua visão do mundo traduz toda a verdade dos fatos, entretanto, a própria vida, obedecendo a uma lei que transcende a natureza humana, expõe o ser a experiências múltiplas e se encarrega de derrubar essa ilusão, obrigando-o a reformular seus conceitos e a retificar e ampliar seu mapa, com a finalidade de restaurar sua harmonia interior.

 

A consciência do homem foi criada com a finalidade de reconhecer que sua existência provém de uma unidade superior, dedicar a esta fonte a devida e cuidadosa consideração; executar as ordens emanadas desta fonte de forma inteligente e responsável; e, por conseguinte, proporcionar um grau ótimo de vida e de possibilidade de desenvolvimento à totalidade da psique. (Jung, C.G. 1957, pg.432)

 

     Com estas palavras Jung induz o homem à reflexão sobre a necessidade de uma atitude humilde diante da vida e que o homem só conseguirá viver plenamente se estiver em sintonia consigo mesmo, com o próximo e com a instância superior que o orienta e o impulsiona a realizar o sentido, a razão de estar no mundo.

 

DESENVOLVIMENTO

 

1. O Corpo 

     É através do corpo que se tem a experiência de si mesmo e se faz contato com o mundo mas, segundo Violet Oaklander em seu livro “Descobrindo Crianças”, em algum ponto do caminho a maioria das pessoas perde o contato com o seu corpo e com isso deixa de ter a consciência plena dos seus sentidos, passa a funcionar na vida como se suas sensações, seus corpos, suas emoções quase não existissem, agindo como se fosse nada mais do que uma grande cabeça pensando, analisando, julgando, imaginando, lembrando, fantasiando, censurando, completamente desligada desta dimensão de seu ser onde se assentam as primeiras experiências que a conectam com a vida.

 

1.1 O Corpo como Sombra

     A desvalorização da dimensão material do ser começou com o desenvolvimento das civilizações patriarcais onde os deuses eram representados por figuras masculinas e o corpo e o feminino foram relegados à sombra e identificados como a morada do pecado.

 

De fato, o corpo é a sombra, na medida em que contém a trágica história de como o surgimento espontâneo da energia vital é morto é rejeitado de cem diferentes maneiras, até que enfim o corpo se torne um objeto sem vida. A vitória de uma vida super-racionalizada se dá a custa de uma vitalidade mais primitiva e natural. Para quem pode ler o corpo, ele guarda o arquivo de nosso lado rejeitado, revelando o que não ousamos falar, expressando nossos temores passados e presentes. O corpo como sombra é, predominantemente, o corpo como “caráter”, o corpo como energia contida que não é reconhecida, não é constatada, é ignorada e indisponível. (John P. Conger, 1993, pg.103)

 

     

    No entanto aquilo que é relegado à sombra ganha força e retorna de forma distorcida é o que acontece na atualidade com a busca insensata pelo corpo perfeito. A dificuldade de aceitação dos sinais do tempo em seu corpo, às vezes leva o indivíduo a extremos em prejuízo de sua própria saúde.

 

1.2 O Corpo como Templo

     No prefácio do livro ”O Corpo e seus Símbolos” de Jean-Yves Leloup , o analista junguiano Roberto Crema, colocou um pequeno texto de Novalis, transcrito abaixo, que encerra de forma perfeita o olhar que se precisa ter sobre esta dimensão material do ser:        “Não existe senão um só templo no universo. E é o corpo do homem (...) Curvar-se diante do homem é um ato de reverência diante desta revelação da carne. Tocamos o céu quando colocamos nossa mão em um corpo humano.”

     Este olhar de respeito esta visão do corpo como algo sagrado é imprescindível não só para a saúde física, mas também para se manter saudável mental e espiritualmente, vez que estas três dimensões que constituem o ser se enraízam umas nas outras formando um todo indivisível.

      Observar com atenção o seu corpo, procurar entender seus sinais, relacionar seu cansaço, suas dores, seus arrepios e tremores, suas alterações de temperatura, as sensações de prazer, de plenitude etc., as emoções e sentimentos, evidencia uma atitude prudente e de respeito para com este templo de carne que permite ao espírito se expressar e agir no mundo.

   Atualmente o homem decidiu que a dor, o desconforto devem ser imediatamente erradicados, utilizando para isso dos mais variados tipos de drogas, seda-se o corpo antes que ele desvende seus motivos, o significado das vicissitudes que o atingem.

Muitas vezes as dores são respostas a emoções e sentimentos que não se quer ou não se pode reconhecer como na experiência pessoal relatada abaixo:

      “Certa vez contratei um senhor para pintar a nossa clínica, mas desde o início ele se revelou um péssimo pintor e o desastre que foi o seu trabalho culminou quando pintou a porta da entrada principal com uma tinta completamente diferente da que havíamos combinado justificando que se enganara ao comprar a tinta, porém a cor era muito bonita. Naquele momento fiquei paralisada e não disse nada, mas lembro-me de sentir um enorme desejo de chutar a lata de tinta e certamente com ela o autor da façanha. No dia seguinte uma dor misteriosa surgiu sem causa aparente no meu pé direito e só depois de muita reflexão consegui relacioná-la à raiva e à indignação não expressas. A dor sumiu somente quando admiti os meus sentimentos e agi no sentido de resolver a situação através de uma atitude adequada e consciente.”

     O aprendizado e o sentimento que uma experiência como esta proporciona ao indivíduo só se consegue expressar através da fala poética:

Meu corpo

meu templo

e minha casa

meu amigo

e meu algoz

meu mestre

e meu discípulo

meu corpo

      Segundo Lelup pode-se imaginar o corpo semelhante a uma árvore. Se a seiva está viva, ela desce às raízes e sobe até os mais altos galhos. É do enraizamento do homem na matéria que depende a sua subida para a luz.

 

2. A Mente

      Etimologicamente, o termo mente vem do latim mentem, que tem o significado de pensar, conhecer, entender, e significa também medir, visto que alguém que pensa não faz outro que medir, ponderar as idéias. Os gregos utilizavam  o termo nous para indicar a mente, que significa atividade do intelecto ou da razão em oposição aos sentidos materiais.

     Ao longo da história o homem vem buscando a resposta para se saber o que é a mente e suas concepções continuamente se alteram, se ampliam, porém quanto mais se aprofunda, mais se enriquece em conhecimentos sobre essa dimensão responsável pela direção, o equilíbrio, o entendimento e o controle de todos os fenômenos da expressão corpórea, mais se conscientiza o quão distante se encontra de decifrar todos os enigmas que ela encerra.

    Durante muito tempo associou-se o conceito de mente à dimensão cognitiva do ser humano, ou seja ao raciocínio, ao pensamento correspondente à atividade consciente, entretanto nem todos os processos mentais são conscientes a mente engloba também o sentimento, a emoção e a intuição.

    Atualmente, sob a ótica da psicologia a mente é vista como um sistema integrador de processos dinâmicos em interação. As coisas são somente a parte física de um pensamento e os pensamentos são a parte mental das coisas. Ou seja mente e matéria são duas faces de uma mesma moeda.

     A expressão “mens sana  in corpore sano” ganha sentido maior quando se entende que as transformações, as alterações que ocorrem na mente vão repercutir no corpo e vice-versa, já que essas duas dimensões do ser formam um todo indivisível.

Manter a saúde não se restringe apenas a cuidar do corpo, adotar bons hábitos de higiene e de alimentação mas também cultivar a mente melhorando  qualitativamente a capacidade de pensar e de sentir, desenvolvendo a percepção, a intuição.

    A evolução do homem não é pois o fruto dessa interação corpo e mente? Ao atender às necessidades do corpo o homem desenvolveu sua mente, ao aprimorá-la, aperfeiçoou o seu corpo.

     Essa integração primordial dessas duas instâncias do ser mais a dimensão espiritual  devem ser levadas em conta em qualquer abordagem que tenha como objetivo promover a saúde e o bem estar humano.

 

3.  O Espírito

     O espirito é a natureza essencial do ser, é a verdadeira zona orientadora de toda a estrutura psíquica é “a vontade” que dirige as dimensões física e mental do ser.

     Segundo Ernani  Guimarães de Andrade , o espirito contém em seu “corpo mental”  toda a sua evolução histórica; esta evolução , por sua vez, foi realizada por seu próprio esforço, em suma, o espírito é a causa e o efeito de si mesmo. Ele é auto-organizador no sentido de ser capaz de ascender por seus próprios meios aos estágios de uma crescente organização armazenando em sua estrutura a totalidade de suas experiências pregressas e delas se valendo para evoluir progressivamente.

    Uma reflexão apurada sobre o acima exposto evidencia a importância que se deve dar à dimensão espiritual do ser que infelizmente devido às correntes empirista,racionalista e positivista  que dominaram o pensamento filosófico e científico nos últimos séculos foi desprezada e relegada aos cuidados da religião enquanto a ciência se preocupava apenas com a dimensão física do homem.

Seguindo essa visão materialista a medicina obteve grandes avanços em matéria de conhecimento do corpo humano desenvolvendo aparelhos,  procedimentos cirúrgicos e medicamentosos no sentido de restabelecer a saúde.

     O enfoque é na doença e no órgão afetado pelo mal e assim surgiram as inúmeras especializações fragmentando a visão do homem que se pergunta hoje: Quem vai unir as partes fragmentadas do meu ser? Quem vai atender aos apelos da minha alma?

As religiões por outro lado apossaram-se da dimensão espiritual do homem e se dissociaram do pensamento científico e o homem se vê aqui com a questão: Como conciliar a fé com a razão?

     Talvez a solução para ambas as questões seja uma harmonização entre  essas duas áreas do conhecimento humano com  o desenvolvimento de uma ciência espiritualista e uma religião que  se abra para o acolhimento do pensamento científico.

Cuidar do corpo é satisfazer as suas necessidades de alimentação sadia, desenvolver hábitos de higiene e de vida saudáveis.  Cuidar da mente é mantê-la ativa através da aquisição de conhecimentos e o cultivo de hábitos que visem o equilibrio entre o mundo interno e as solicitações do meio externo. Mas o espírito como atender às suas necessidades?

     Segundo Leonardo Boff, cuidar do espírito significa cuidar dos valores que dão rumo à caminhada do homem, é alimentar significações que encham de sentido a sua vida. Cuidar do espírito consiste em se acender a brasa interior da contemplação e da oração diuturnamente para que nunca se apague. Significa  especialmente cuidar da espiritualidade que é a capacidade de sentir Deus a partir do coração e de vê-lo nascer a cada momento no outro.

 

4. Yoga e meditação como caminho para a integração o ser

     Sem dúvida alguma o homem necessita para viver plenamente buscar um  sentido, um significado para sua vida e para tal precisa encontrar um caminho que promova a harmonia e a integração das esferas física mental e espiritual que o constituem. O yoga e a meditação podem ser essa via que conduz o ser ao encontro de sua totalidade.

 

4.1 Yoga

     O termo yoga provém do radical “Yuj”, que significa Samadhi (integração). Refere-se também ao mais alto controle da mente. Samadhi é um estado que vem com o passar do tempo levando à integração da personalidade em todos os níveis físico, mental e espiritual. Para atingir essa integração é necessário vencer as causas (hereditárias ou ambientais) que provocam a desintegração do ser e, esse é o objetivo do Yoga e para tal desenvolveu uma filosofia e uma prática.

 

4.1.1 Yoga e Sua Prática

     Patanjali sábio que sistematizou e transformou os ensinamentos do yoga em uma filosofia, ordenou a sua prática dividindo-a em oito partes:

  • Yama, treinamento de atitudes baseado em princípios ou código moral.

  • Nyama, auto-observância, cultivo das virtudes

  • Asanas, posturas (posições corporais estáveis e confortáveis que possibilitem atingir um equilíbrio mental;

  • Pranayama, controle do processo respiratório; 

  • Pratyahara, abstração dos sentidos, é a calma dos órgãos, o relaxamento profundo do corpo propiciando o equilíbrio e a estabilidade da mente o que posssibilita a entrada no estado meditativo

  • Dharana, concentração da mente sobre um objeto e seu campo

  • Dhyana, meditação;

  • Samadhi, expansão da percepção da consciência a tal ponto que a consciência individual se dissolve restando apenas a consciência  universal.

A prática da yoga beneficia pessoas de diferentes idades, com diferentes características e em situações diversas:

quando se pensa em aplicar yoga  a uma  variedade de  situações de vida, deve-se compreender a relação  entre as diferentes partes e o todo, e  já  consideramos isso no  contexto  da  integração da  personalidade. Portanto se há um desejo de enriquecer ou mehorar  a vida de  alguma  forma, é  preciso entender primeiramente  quais  são as nossas  necessidades.  Depois podemos analisar  como a yoga pode nos ajudar mais. (Manhhar Laxman Gharote, 2002, pg.67)

 

     Tal recomendação se justifica quando se entende que o principal objetivo do yoga é o homem integral, o homem capaz de realizar o seu mais alto potencial, sendo que para  isso  é necessário auto-conhecimento e vontade de promover as mudanças necessárias para a conquista da harmonia interior que lhe trará uma inserção na vida em sintonia com a ética que promana da lei suprema que regula o universo.

     Sabe-se que o Yoga não deve ser aplicado a crianças muito pequenas, mas também se reconhece os benefícios que o Yoga praticado pela mãe traz ao bebê ainda na fase intra-uterina e também após o seu nascimento,  já que mãe e filho formam, desde a concepção até o primeiro ano de vida,  uma unidade a que Jung denominou de “ participação mística”. O bebê está imerso no psiquismo materno e todo o proveito que a prática do yoga trouxer à mãe se refletirá no bem estar da criança.

    Já vem se desenvolvendo um trabalho  com excelentes resultados aplicando-se o Yoga à crianças em idade escolar. Os benefícios são inúmeros, a experiência de Vania Lucia Slaviero relatada no livro “De Bem Com A Vida Na Escola” é um exemplo disso.

     A prática das posturas do gato, do leão, da árvore, da montanha, etc. despertam a consciência corporal e levam a criança  à uma integração com a natureza, melhoram a sua concentração e consequentemente a sua aprendizagem e as atividades que visam desenvolver-lhe a sensibilidade  e despertar seus mais nobres sentimentos contribuem para reduzir o índice de violência nas escolas.

   Na adolescência quando o relacionamento com os pais e com as figuras de autoridade ficam mais difíceis em virtude da necessidade de independência e de afirmação da personalidade  o Yoga pode ajudar  o jovem no conhecimento e aceitação do corpo que sofre transformações, auxiliando-o também no controle das emoções que nesta fase ganham uma expressão mais intensa.

     Envelhecer é um processo que exige paciência, humildade e sabedoria para se aprender a lidar com as limitações e frustrações que o declínio das funções orgânicas acarreta. Os exercícios do Yoga contribuem para manter a energia vital, melhoram o funcionamento dos órgãos e ajudam a combater os sentimentos de solidão, ansiedade, insegurança e egocentrismo que costumam aparecer  nesta etapa da vida.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                4.2  Meditação

 

    A prática da meditação é tão antiga quanto a humanidade não sendo originária exatamente de um povo ou uma região desenvolveu-se em várias culturas diferentes e recebeu vários nomes.

      A palavra meditação vem do latim, meditare, que significa voltar-se para o centro no sentido de desligar-se do exterior e voltar a atenção para dentro de si. Em sânscrito é chamada dhyana e constitui-se na sétima das oito etapas da via traçada pelo sábio Patanjali para que se alcance a plenitude do ser.

    Manhohar Laxman Garothe em seu Livro Yoga Aplicada – Da Teoria à Prática  explica que embora Dyana seja traduzida simplesmente como meditação é melhor que seja compreendida como uma série contínua no processo de diferentes graus de distanciamento da mente. É um processo no qual o indivíduo vai paulatinamente se distanciando do ambiente externo, dirigindo e concentrando sua atenção em único objeto, imagem sonora, conceito ou momento vivido.

     No livreto Yoga e Meditação e Japa Sadhana publicado pela “The Divine Life Society, Rshikesh, Índia”, Sua Santidade Sri Swami Krishnananda Saraswati Maharaj  traça um esboço do que seria necessário para a prática da meditação.

     Inicia instruindo que para se alcançar um estado de consciência de meditação precisa-se primeiro de estabilidade e harmonia:

  • Harmonia nas relações externas com a sociedade e com o mundo, através do exercício do amor, da paz, da solidariedade;

  • Harmonia com sua própria personalidade através da auto-observação, atendendo conscientemente suas necessidades físicas mentais e espirituais; 

  • Praticar os asanas para manter a harmonia dos músculos e sistema nervoso e evitar o estado de inquietude e agitação  para manter o equilíbrio do corpo;

  • Tornar o processo respiratório harmônico, Pranayama é o estado normal da respiração, a insatisfação permanente, o descontrole sobre os desejos trazem desarmonia e a prática do pranayama será inútil ou até prejudicial;

  • A quinta  harmonia se refere ao controle dos sentidos; como os sentidos estão ligados com a mente o resultado é o controle da mente.

  • O sexto passo refere-se às três formas de concentração:

  • Concentração em pontos externos:

     Inicia-se o processo através da concentração em objetos externos, vez que a mente está acostumada a pensar desta forma. Deve-se escolher um objeto que  seja significativo, pelo qual se possua amor. Quando se conseguir a concentração simplesmente cerrando os olhos sem o suporte externo da figura escolhida  então se atingiu o primeiro passo da meditação.

  • Concentração em pontos internos:

     Consiste em dirigir a mente para certos centros do corpo que são campos de força conhecidos como chakras. Pode-se iniciar meditando sobre o Ajna chakra, passando pelo vishuda chakra para atingir o anahata chakra. Outro método de meditação interna é dirigir o foco diretamente para o coração.

  • Concentração no Universal:

     O último nível da meditação consiste em se atingir o estado de consciência universal, para se atingir esta forma absoluta de meditação, pode-se entoar o ON que é o símbolo da vibração universal, é a vibração do início da criação do mundo. Quando se entoa o ON entra-se em sintonia com o Cosmo e o resultado é um sentimento sublime de integração com a força criadora do Universo.

Percebe-se que para atingir este estado de integração é necessário todo um processo que exige do ser  esforço, disciplina, humildade, boa vontade mas sobretudo o desenvolvimento de sua capacidade de amar.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

     A sociedade atual vem se deparando com a necessidade de realizar mudanças profundas em sua forma de pensar e agir no mundo se quiser manter este planeta vivo. Para tal ela necessita de homens livres do egoísmo e da dissociação que os aliena da natureza da qual é parte integrante

O homem integral, consciente da sua natureza tríplice (mente- corpo –espírito) é o que será capaz de realizar esse novo paradigma onde a ética e o amor devem presidir as relações entre os homens e o planeta que os acolhe.

     O Yoga e a Meditação oferecem ao ser humano os recursos necessários para atingir essa integração, que o tornará capaz de participar da teia da vida com uma consciência profunda das leis que regem o cosmo.

   Quando procurei o Instituto de Bem com a Vida para inscrever-me no curso de pós-graduação em Yoga Pedagógica e Neuroaprendizagem, obedecia a uma voz interior, uma espécie de intuição que me dirigia para algo muito diferente do que até então se constituíra minha zona de interesse em termos de aquisição de conhecimentos.

Vinha de um curso de pós-graduação em psicologia analítica na PUC/PR. e de uma especialização no Instituto Junguiano de São Paulo.

     Essa especialização exigia constantes e cansativas viagens a São Paulo para assistir a aulas, palestras, apresentar trabalhos e submeter-me a supervisões.

     Foi um período em que perdi completamente o contacto com meu corpo que buscava através dos sonhos chamar atenção para o desastre que esta atitude imprudente de alienação desta importante parte do meu ser estava me levando.

     Depois de repetidos sonhos em que dirigia carros completamente desgovernados ou então na contramão, sonhos aos quais não dei a mínima atenção, mesmo sabendo que um dos símbolos universais do corpo é representado por veículos carruagens, carros, etc., sofri um pequeno AVC e um infarto detectados posteriormente através de exames solicitados pelo médico, pois tal era o grau de alienação do meu próprio corpo que não os percebi no momento que aconteceram.

                                         

A Sabedoria Interior se encarregará de emitir, informar-lhe o

que deve ser feito para se auto-equilibrar.

Ex.: Seja uma sugestão para descansar – repousar – jejuar -        tomar um chá – evitar de comer tal coisa – reduzir horas de trabalho mudar a relação com determinada pessoa etc...

Confie no seu sistema... com a prática você perceberá que tem um “supermédico interior”, um Sábio que está conectado diretamente com a Fonte Superior Divina em você. (Vânia Lúcia Slaviero, 2000, pág. 49)

 

     Havia perdido essa conexão. Não soube identificar os sinais que meu corpo e minha alma me enviavam no sentido de retornar ao equilíbrio moderando o ritmo acelerado e caótico que tomara conta dos meus dias.

Levei alguns anos para digerir esses fatos, creio que a minha decisão de procurar o Instituto de Bem com a Vida tem como pano de fundo esses acontecimentos.

     Tive muita dificuldade no transcorrer do curso. 

     Na prática dos asanas, meu corpo sem nenhum preparo resistia à realização das diversas posturas e na parte teórica havia certa reserva em me abrir para novos conhecimentos, pois desapegar-se de hábitos, conceitos e idéias já consolidados exige humildade, desprendimento e coragem.

     Considero a realização deste trabalho uma oportunidade que a mim foi oferecida para que pudesse refletir e aprender sobre o quanto o ser humano necessita lutar pelo equilíbrio e o aprimoramento das suas dimensões física, mental e espiritual, sem essa harmonia entre as partes que o constitui a vida perde o seu sentido torna-se como a terra ressequida destituída do seu encanto, de sua beleza e de sua magia, pois está na essência de ser o objetivo de atingir sua totalidade, viver em sintonia consigo, com o próximo e com a Força Criadora do Universo.

     As estrofes abaixo talvez expressem melhor esse anseio pela busca dessa harmonia e o sentimento de plenitude que invade o ser nos momentos que consegue atingi-la

 

Antes do bailar da chuva

nada pode acontecer...

A terra seca e sem odores

guarda a semente inerte

exangue de forças

para estender os verdes braços

em direção ao sol

O vazio engoliu o rumor da vida

Desperta rápido

Oh! princesa adormecida

que um raio fira

o teu ventre estéril

e o ar se encha de fulgurantes luzes

que a chuva caia

sobre tua face esquálida

e dentre os respingos d’águas

pequeninos elfos se levantem

para dançar contigo

a dança mágica da vida.

 

REFERÊNCIAS

 

CONGER, P. JOHN. Jung & Reich: O Corpo como sombra, Summus Editorial, SP - 1993

GHAROTE, MANOHAR LAXMAN. Yoga Aplicada: da Teoria à prática, Phorte Editora, São Paulo - 2002

JUNG, C.G. Aion – Estudos sobre o simbolismo do si mesmo, Obras Completas, Volume IX/2, Editora Vozes, Petrópolis - RJ – 1976

JUNG, C.G. Psicologia da Religião Ocidental e Oriental, Editora Vozes, Petrópolis-RJ – 1971

LELOUP, Jean-Yves. O corpo e seus símbolos, Editora Vozes, Petrópolis-RJ - 1998

MINDEL, ARNOLD. O corpo Onírico, Summus Editorial, São Paulo – 1989

OAKLANDER, VIOLET. Descobrindo Crianças, Summus Editorial, São Paulo - 1980

PIRES, J. HERCULANO, O Espírito e o Tempo, Edicel, Sobradinho – DF – 1995

SLAVIERO. VÂNIA LÚCIA. De Bem Com a Vida, Gráfica e Editora Lastro, Curitiba – PR – 2000

SLAVIERO, VÂNIA LÚCIA. De bem com a vida na escola – Editora Ground – SP. – 2004

http//sivanandabrasil.com.br – acesso em 16/0/2013

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Trabalho apresentado dia 2 de Fevereiro de 2013, no Curso de Pó-Graduação em Yoga Pedagógico com Neuroaprendizagem, pela Faculdade São Braz, Curitiba, Paraná, pela aluna Otilia Balbina do Rosario, Orientador Prof. John Rafael de Castro Neves, Coordenadora Profª. Vânia Lúcia Slaviero.

[1]  Licenciatura em Letras Português e Inglês pela Fundação Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Guarapuava (1977), Graduação em Psicologia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras “Tuiuti” (1992) Pós-Graduação em Psicologia Analítica pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (1997). otiliabalbina@yahoo.com.br